sexta-feira, 14 de março de 2014

"Bons tempos, minha querida cidade, em que éramos pobres e amáveis! Sabíamos ser alegres, mas não tanto que ofendêssemos os tristes; e em nossa tristeza havia suavidade, porque éramos pacientes e compreensivos. Acreditávamos nos valores do espírito: e neles fundávamos a nossa grandeza e o nosso respeito. Mesmo quando não tínhamos muito, sabíamos partilhar o que tivéssemos com amor e delicadeza. Passávamos pelo povo mais hospitaleiro do mundo, mas esquecíamos a fama, para não nos envaidecermos com ela.
[...]
E eis que tudo isso, que era a tua virtude e o teu encanto, desapareceu de súbito, porque uma ambição de grandeza e riqueza toldou a tua beleza tranquila.
[...]
E assim, minha querida cidade, a juventude tem perdido a generosidade, a maturidade tem esquecido sua prudência e a velhice sua sabedoria: todos aqui tem ficado menores, e meio pobres, à medida que aumentam a tua riqueza e a tua grandeza. E então eu me pergunto que grandeza, que riqueza são essas que fazem diminuir e empobrecer os teus habitantes. Que fundamento funesto existe nessa riqueza e nessa grandeza que, à sua sombra, os homens se tornam mesquinhos, perversos, ardilosos de pensamento e ferozes de coração."

(lamento pela cidade perdida_Cecília Meireles)

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